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quinta-feira, 24 de julho de 2008

Imagem do Rio

Ontem, na página 7 de O Globo, Zuenir Ventura escreveu um artigo bem legal e triste, em que comenta o que se tornou o Rio de Janeiro nessas últimas décadas.

Ele diz: "nenhum dos viajantes estrangeiros que ao longo dos séculos se deslumbraram com o hedonismo dessa terra solar de Dionísio, afável e bela, jamais previu que o Rio pudesse vir a ser uma cidade identificada com a morte, onde se mata e morre sistematicamente. Uma necrópole povoada de vítimas fatais. Dói constatar que a Cidade Maravilhosa virou um lugar lindo para se morrer. (...).


É, dói muito mesmo.

Dói saber que o Rio se tornou a cidade dos 7Ps:

- da pilantragem
- do paitrocínio (é a terra dos que vivem às custas das famílias - na maioria das vezes sustentadas pelo Estado, pelo Governo, pela nossa grana)
- da pirataria (cidade sem lei, sem ordem urbana, sem respeito ao direito dos outros)
- da polícia "que atira primeiro e pergunta depois"
- da pouca-vergonha dos políticos (basta ver o abandono em que a cidade se encontra, tanto na Zona Sul, quanto na Zona Norte e nos subúrbios)
- do passado (de cidade-capital próspera e maravilhosa, irradiadora de movimentos culturais como a Bossa Nova)
- do "meu pirão primeiro" (honestidade é coisa de otário na terra onde reina a Lei de Gérson)

E como é que fica a imagem do Rio com toda essa miséria e violência que os jornais, internet e televisão despejam na cara da gente todo dia? E podemos esperar alguma coisa dessa nova geração de políticos que está aí? Dessa nova geração de políticos que tem a cara do filho do nosso prefeito?

Como é que pode uma cidade tão linda, com uma história tão rica e um povo tão criativo, negligenciar tanto o seu potencial turístico? Até as áreas de maior apelo turístico da cidade estão abandonadas. São administradas como se estívessemos no Século 18 - ou seja, com o mesmo espírito predatório dos colonizadores.

Fui a Gramado e Canela há duas semanas e fiquei admirado com o profissionalismo e a organização do turismo na Serra Gaúcha. Tudo bem que não se pode comparar duas cidades pequenas com uma metrópole. Mas por que as coisas lá funcionam tão bem e no Rio tudo tem um jeito de maracutaia misturada com incompetência e falta de profissionalismo?


A imagem do Rio só não está pior porque a cidade é uma obra de arte da natureza. Mas até quando ela resiste a tanto descaso, destrato e desgoverno? De quem podemos esperar alguma (re)ação no sentido de começar a virar esse quadro? Dos candidados a prefeito que estão aí? Da própria sociedade? Que o Cristo Redentor abençoe a cidade que abraça.

Um comentário:

Fernanda disse...

Muito interessante e oportuno o artigo. A falta de investimentos no Rio é chocante. Você citou o profissionalismo do turismo em Gramado e aqui temos o símbolo maior da decadência do turismo no Rio: a falência do Hotel Meridien, vendido há alguns anos para a Rede Ibero-Star, que faliu também! É triste passar pela orla de Copacabana e se deparar com aquele prédio imenso, símbolo maior do reveillon carioca com sua inesquecível cascata de fogos, totalmente abandonado!

Agora, se a zona sul carioca se encontra nesse estado de abandono, com ruas esburacadas e escuras, imagina o súburbio.

Outro dia, peguei um táxi, em que o motorista, virginiano, comentou: o subúrbio é uma terra de ninguém. O charme do passado e a vida simples, porém digna, com escolas e hospitais públicos decentes, deram lugar ao medo. Um lugar, feio, sombrio, violento, com pessoas amendrontadas pelo narcotráfico.

O taxista ainda emendou: "no rio todo mundo é pobre, é um pobre trabalhando para outro pobre... O poder aquisitivo das pessoas diminuiu muito, a maioria ganha mal, come mal, se veste mal e é endividada", ele disse.

Ele comentou que leu há algum tempo uma matéria jornalística em um jornal de grande circulação que comparava a vida de um morador da periferia carioca com o de um da periferia paulista. Ficou provado que a classe média baixa de São Paulo ganha melhor e gasta menos com serviços como alimentação e transporte. Tudo aqui no Rio está mais caro e com a qualidade deteriorada.